quinta-feira, 23 de julho de 2009

A PRIMEIRA MUSA DE MACHADO DE ASSIS


Como todo rapaz sonhador, Machado não podia deixar de compor poesias românticas. Aos 16 anos, escreveu uma série de poemas de amor para alguma mocinha que ele não quis revelar e que os críticos batizaram de “ciclo de poesias dedicadas à primeira musa”. Ao todo, são 6 poemas oferecidos a uma cantora italiana, escondida sob o nome de Júlia. Sabe-se que, nessa época, não havia nenhuma atriz ou cantora italiana com esse nome atuando na cidade do Rio de Janeiro. Por causa deste mistério, aventaram-se diversos nomes de possíveis atrizes líricas que poderiam ter despertado tal paixão no peito do jovem Joaquim Maria. Alfredo Pujol sugere o nome de Annetta Casaloni, uma das rivais da Charton. Já o professor Jean-Michel Massa acredita que a mulher em questão seria Augusta Candiani.


Tornara-se muito comum escrever poesias e dedicá-las às cantoras de ópera. Era um tempo em que as mulheres de família quase não colocavam os pés nas ruas, de maneira que restavam aos rapazes apaixonados ou as prostitutas ou essas atrizes cobertas de glória. Na verdade, elas tinham incontáveis adoradores, que duelavam pelos jornais, cada qual defendendo em versos a sua musa. Houve mesmo uma verdadeira batalha nas gazetas entre as facções casalonistas e as chartonistas. Cada poeta tinha a sua dama para louvar, uma autêntica transposição moderna do amor cortês. Quando uma delas entrava no palco, os seus admiradores cobriam-na com pétalas de rosas, enquanto os adversários deitavam vaias e assobios.


Machado adorava ópera e teatro, mas era pobre e quase nunca conseguia dinheiro para assistir aos espetáculos. Mais de uma vez, deve ter ficado junto à porta, do lado de fora do teatro, observando o alegre movimento, admirando todas aquelas carruagens e pessoas elegantes. Sabia que diversão daquela espécie não era para gente como ele, pelo menos enquanto não arranjasse um bom emprego e pudesse pagar o preço do ingresso. De qualquer forma, é provável que tenha visto algumas atrizes entrando ou saindo do teatro, de longe e rodeadas por muitos outros admiradores. Depois, retornaria para sua humilde casa lá no bairro de São Cristóvão e no silêncio triste do seu quartinho mal iluminado, pegava da pena e se punha a escrever poemas românticos, onde procurava expressar seu amor platônico:

Meu Anjo

“És um anjo de amor - um livro d’ouro
Onde leio o meu fado
És estrela brilhante do horizonte
Do bardo namorado
Foste tu, que me deste a doce lira
Onde amores descanto.


Lúcia Miguel Pereira também sugere que a mulher amada seria a Casaloni, uma cantora de ópera muito famosa naquela quadra. A título de curiosidade, observe-se como uma crônica da época descreve a artista:

“A Casaloni tem o aspecto viril, o meneio precipitado, displicente, a fronte arquejada, bojuda, os olhos verdoengos, grandes, sem ação, retentos, atontados. Tem a cútis adensada, as espáduas largas, o talho agigantado, as proporções da antiga Palas, as carnes flácidas, o peito inflexo, espaçoso”.

Pela descrição, notamos que a natureza não fora muito generosa com a Casaloni, no tocante à beleza e demais atributos físicos. Se não era bela, também não era jovem e a verdade é que ela conquistava seus admiradores através de sua voz poderosa, que fazia tremer até os tetos dos teatros. Segundo Machado, ela tinha um vozeirão que valia por toda uma companhia. A seguinte quadra de Francisco Otaviano bem define a Casaloni:

“Que importa que digam que é velha, que é feia,
Que pinta o cabelo, que enfeita o carão,
Se as vozes que partem daquela sereia
Despertam nas almas suave emoção.”

2 comentários:

Diego Fernandes de Oliveira disse...

Machado de Assis e sua musa da "Hora do espanto", com certeza era decorador, apreciava a beleza interior

José Antonio Martino disse...

Esta é a Anetta Casaloni, uma das cantoras que fizeram verdadeiro "furor" na cidade do Rio de Janeiro, pela metade do século XIX. Elas eram tão famosas quanto as atrizes de televisão do nosso tempo. Se não a achou das mais belas, é porque você não viu ainda um retrato da Ismênia dos Santos, uma grande atriz da época... rsrrsr Obrigado pelos comentários, Diego!