quarta-feira, 15 de julho de 2009

A MÃE DE MACHADO DE ASSIS * * * * * MARIA LEOPOLDINA MACHADO DA CÂMARA - Parte II

Uma das questões mais controversas na biografia da mãe de Machado é saber se Maria Leopoldina chegou ao Brasil já moça ou ainda menina. A opinião dos estudiosos divide-se radicalmente quanto a isso e creio que nunca haverá um consenso, uma vez que não há dados concretos sobre este assunto. Por minha parte, estou inclinado a acreditar que ela chegou aqui por volta dos três anos, ou seja, em torno de 1815. Esta hipótese, defendida por alguns comentadores da obra de Machado, é fundamentada por dois fatos principais.

Gondin da Fonseca, que esmiuçou a vida de Machado por todos os lados, chegando, inclusive, a viajar para os Açores, encontrou o assento de batismo da mãe do escritor na igreja de São Sebastião, localizada na cidade de Ponta Delgada. Curiosamente, os pais dela batizaram a menina simplesmente como Maria e mais nada. Sem qualquer sobrenome. Ora, o Leopoldina que lhe foi acrescentado posteriormente só pode ter sido em homenagem a Arquiduquesa da Áustria, D. Leopoldina, primeira mulher de D. Pedro I. A imperatriz chegou ao Brasil em 1817, ano em que muitas crianças receberam na pia batismal o seu nome, por estar na moda.




















A fim de colaborar ainda mais com esta opinião, basta lembrar que Maria Leopoldina sabia ler e escrever. Praticamente todos açorianos que vieram para o Brasil no início do século eram analfabetos. Por isso, acredita-se que ela tenha aprendido a ler e escrever ainda menina na chácara do Livramento, aos cuidados de dona Maria José.
Ignora-se como Maria Leopoldina ligou-se à gente da chácara, nem se ainda devia algum dinheiro a alguém pelos custos da viagem. O certo é que granjeou grande estima de dona Maria José, que a tratava como uma filha. Aos 14 anos esteve para se casar, porém o consórcio acabou não se realizando por algum motivo ignorado. Três anos depois, encontramos a menina noiva novamente e mais uma vez frustraram-se os seus planos nupciais (nesta oportunidade, o noivo teria sido Joaquim José de Mendonça, filho de Maria José). A terceira tentativa de casamento ocorreu aos 21 anos e também dessa vez não houve matrimônio. Quem defende essa idéia é ainda Gondin da Fonseca, afirmando que Maria Leopoldina já se via solteirona e somente por isso aceitou a proposta de casamento do pai de Machado. Segundo Gondin, ela casou-se aos 26 anos com Francisco José por medo da solidão e sem nenhum amor a ele. Mas há quem conteste este julgamento, como o francês Jean-Michel Massa, também outro grande estudioso da vida de Machado de Assis. De qualquer forma, os pais do escritor casaram-se no dia 19 de agosto de 1838 na capela do Livramento.

O casal teve dois filhos: uma menina, que foi batizada com o mesmo nome da mãe, Maria, e um menino, Joaquim Maria, que viria a se tornar um dos maiores escritores da literatura mundial. O pequeno era muito apegado à mãe. Ela contava-lhe histórias tão lindas, que o menino ouvia sempre curioso e atento. Foi Maria Leopoldina quem lhe ensinou as primeiras letras. Alguns anos depois, Machado se lembraria dela numa poesia:

MINHA MÃE

Quem foi que o berço me embalou na infância
entre as doçuras que do empíreo vêm?
e nos beijos de célica fragrância
velou meu sono puro? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança,
é dela, que os meus sonhos de criança
dourou: é minha mãe!

Quem foi que ao entoar canções mimosas
cheia de um terno amor, - anjo do bem,
minha fronte infantil encheu de rosas
de mimosos sorrisos? Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento,
o fogo da saudade me arde, lento,
é dela: minha mãe!

Qual o anjo que as mãos me uniu outrora
e as rezas me ensinou que da alma vêm?
e a imagem me mostrou que o mundo adora,
e ensinou a adorá-la? Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
desse anjo gentil do paraíso
que chamou-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente,
que ela reza por mim no céu também;
nas santas rezas do meu peito ardente
repetirei um nome: minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma,
ó! do povir eu trocaria a palma
para ter minha mãe!


Depois dessa poesia, Machado silenciou e quase mais nada escreveu sobre ela pelo resto de seus dias. Para o escritor, deveria ser uma recordação muito dolorosa lembrar-se de sua querida mãe, que partira desta vida ainda tão jovem, com apenas 36 anos de idade. No século XIX, a tuberculose era uma doença que matava sem piedade, escolhendo indistintamente suas vítimas em qualquer classe social. Maria Leopoldina apanhara a tísica e morrera no dia 18 de janeiro de 1849, quando o pequeno Joaquim Maria tinha apenas nove anos. Este fato deixou profundas marcas na existência de Machado. A dor provocada pela morte de uma pessoa tão próxima feriu irremediavelmente a alma daquele pobre menino indefeso, agora desprotegido e entregue à crueldade do mundo. Logo compreendeu que tudo na vida era transitório e inseguro.

O que prova que Maria Leopoldina seria uma pessoa muito querida na Chácara do Livramento, é que ela foi enterrada no Convento de Santo Antônio, bem ao lado de dona Maria José, a madrinha de Machado.

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