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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Machado e a Monarquia 1

          E como Machado de Assis teria visto a proclamação da república? Embora ele nunca tenha se expressado claramente a este respeito, sabe-se que o escritor via a monarquia de maneira simpática. Tinha grande admiração por D. Pedro II e chegara mesmo a freqüentar o paço imperial algumas vezes, como prova a sua assinatura no livro de presenças. Se exultou com a abolição dos escravos, não aconteceu o mesmo ao receber a notícia de que a república havia se instalado no país. Em seu íntimo, estava convencido de que a monarquia parlamentarista era o regime ideal e nunca acreditou no presidencialismo à maneira americana. Na verdade, sabia que pouca serventia teria a mudança de regime, uma vez que os políticos que disputavam o poder eram sempre os mesmos. Para Joaquim Maria, estava claro que os graves problemas nacionais não seriam resolvidos apenas com o advento da república.
          Se durante sua juventude Machado de Assis demonstrava certa tendência liberal, com a maturidade o seu temperamento foi se tornando cada vez mais conservador, explicado em parte por suas funções no Ministério, que exigiam discrição em suas opiniões. Não é que ele fosse contra a república, mas imaginava que o novo sistema pudesse descambar para a anarquia, alterando a rotina de seus hábitos. Depois que encerrou em agosto de 1889 a sua coluna “Bons Dias!” na Gazeta de Notícias, ausentou-se dos jornais durante algum tempo, como se estivesse traumatizado com o golpe da república. Quase nada escreveu a respeito, assistindo com certa antipatia o afastamento de D. Pedro II. Apenas registrou de maneira humorística estes eventos no Esaú e Jacó, no célebre episódio em que o proprietário de um estabelecimento comercial não sabia o que escrever na tabuleta de sua loja, se confeitaria do império ou da república.



Paço Imperial,
freqüentado por Machado de Assis algumas vezes.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

GRAZIELA

Um caso curioso ocorrido durante a temporada em que Machado e Carolina encontravam-se em Nova Friburgo (dezembro de 1878 a março de 1879) foi o desaparecimento da cachorrinha do casal. Chamava-se Graziela, nome retirado de uma heroína romântica de Lamartine e era uma tenerife branca, de pêlos felpudos e encaracolados. Como eles não tinham filhos, eram muito apegados a essa cadelinha, que teve seu lugar até mesmo no Memorial de Aires. Graziela dormia numa cesta de vime, que ficava ao lado da cadeira de braços “Romeu e Julieta”. Um dia, ela aproveitou um descuido de Clara, a empregada que ficara responsável por alimentá-la durante aquele período, descobriu o portão da casa aberto e fugiu para a rua. Tragédia! Ao serem informados daquela infelicidade por telegrama, Machado e Carolina ficaram transtornados. Imediatamente, Joaquim Maria mandou publicar na Gazeta de Notícias e no Jornal do Comércio um anúncio, prometendo dar uma recompensa de cem mil réis para quem trouxesse de volta a cachorrinha. Graziela foi encontrada no início de março para alívio do casal; ela ainda viveu na companhia deles por um bom tempo, tendo falecido em idade avançada, já quase cega e sem dentes. Certa feita, Joaquim Maria e Carolina deixaram de visitar a residência do casal Rodolfo Smith de Vasconcelos e sua esposa, a Baronesa Eugênia, aonde iam quase todas as noites para jogar e conversar. Indagada a respeito do motivo daquelas ausências, Carolina respondeu com olhos molhados: “A Graziela morreu...”. O próprio Machado de Assis enterrou a cadelinha com seu cesto e tudo no jardim da frente. Algum tempo depois, arrumaram outro cachorro, um pretinho de nome Zero, mas que não teve vida longa.

Machado adorava cães, sobretudo a Graziela, companheira de vários anos. Tanta afeição resultou num soneto, que o escritor escreveu em memória de sua querida cachorrinha. Intitulado “Um Óbito”, este poema jamais foi reunido em livro e é pouco conhecido, tendo sido publicado pela casa Lombaerts no seu famoso Almanaque das Fluminenses, para o ano de 1892:

“UM ÓBITO

Este silêncio inda me fala dela,
Como que escuto ainda os seus latidos,
Vagos, remotos, sons amortecidos,
Da vida que nos fez a vida bela.

Boa, coitada, boa Graziela,
Companheira fiel dos anos idos,
Querida nossa e nós os seus queridos,
Conosco dividiu a alma singela.

Tivemos de outras afeições que a asa
Do tempo, ingratidão, fastio, intriga,
Qualquer cousa desfaz, corrompe, arrasa.

Tudo se liga e tudo se desliga,
Mas porque não ficou em nossa casa,
Esta que foi nossa constante amiga?”